terça-feira, 12 de junho de 2012

Vivencias Teatrais

Aos treze anos fui atraído para uma arte, até então, desconhecida, mas atraente ao ponto da admiração. Convidado por meu irmão, ia às suas aulas de teatro para saber do que se tratava, afinal de contas estava conhecendo o mundo de forma crítica, formando opinião sobre tudo e todos, porém quando em cena estava aquele ser humano tão conhecido em casa, meu irmão, acontecia algo que realmente me deixava boquiaberto, não o reconhecia, naquele exato momento da encenação ele me era tão estranho como qualquer outro que visse na rua.
Sem entender e intrigado por esse momento fantástico, continuei a ir nas aulas, sábado após sábado, e sempre era o mesmo sentimento, gostei tanto das possibilidades de ser outro que decidi entrar para esse mundo desconhecido, passível de oportunidades nunca conhecidas, em minha mente crescia a vontade de ser, afinal de contas nessa idade a afirmação do eu é muito gritante em nossa mente. Sabia que através desse admirável mundo novo eu enxergaria como nunca havia enxergado antes.
Tempos depois ainda não havia encontrado a resposta e muito menos conseguia gerar nos outros o efeito que meu irmão gerou em mim, era intimamente um ator jovem e pouco experiente na arte da interpretação, ia para a cena com vários vícios e histrionismos dignos de risos infindáveis, não buscava verdade nenhuma, pois não compreendia a verdade, via apenas dois pontos básicos: a partida e a chegada, falava tão rápido, engolia as palavras como se a cena fosse uma corrida frenética.
Com o passar do tempo e muitas aulas depois fui compreendendo que a arte de interpretar vem de dentro de nós, que não adiantava os movimentos exagerados, os histrionismos e a gritaria, o que acontecia nesse caso era a total negligencia do texto, elemento este fundamental ao teatro, antes de qualquer interpretação é preciso entender a dramaturgia existente no texto, porém somente após muito tempo me dei conta dessa necessidade que urge à boa interpretação. Embora tardio, mas não desistente, fui em busca de mais conhecimento e nessa busca pude me defrontar com um maravilhoso mundo de possibilidades, eu fui mais longe em um ano do que tinha ido em minha vida toda, quantas teorias, quantos mestres, em pouco tempo a clarividência do conhecimento iluminou-me de forma incisiva e pude com esse conhecimento refletir sobre a arte de interpretar.
Nesse instante pude compreender o que se passou há muitos anos atrás no meu primeiro contato com o teatro, percebi que aquele sentimento tinha um nome e um significado, era o estranhamento, eu reconhecia o teatro como não realidade, porém os sentimentos inerentes ao humano eram perceptíveis a ponto de me entregar a catarse. Percebi que sem a catarse não há a identificação, a humanização no sentido mais puro da palavra, não há de se fazer entender sem se entregar ao mundo onírico dos palcos, a cena é a representação real dos sentimentos humanos e não do histrionismo forçado.
Tão estranho ir tão longe para perceber que a resposta estava tão perto, quase podia sentir o fervor dentro de mim. Depois desse dia nenhuma peça foi a mesma, assisti com olhar vívido as representações que se seguiram, quanta beleza, quanta dedicação, era música aos sentidos as boas representações, cada peça uma aula, as ruins eram melhores ainda ao aprendizado, pois a imperfeição é típica de nossa arte e nela reside a propensão para a criatividade.
Hoje nada mais será como antes, ainda estou aqui tentando aprender algo sobre ser, a única ferramenta que disponho e que preciso é a minha sensibilidade, essa que abre os seus olhos e que te mostra que tudo é interessante ao ator, do grego "aquele que age", todas as pessoas e ações me interessam, nossas mentes sempre estão ávidas ao aprendizado, hoje abro a mente, penso, crio, erro, tento, erro, consigo, faço, essa é a chave, fazer, se somos aqueles que agem, atores, é mister de nossa arte agirmos.

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