quinta-feira, 14 de junho de 2012

Teste ou Presente?!

Ontem, dia 13 de junho, fui ao Rio de Janeiro fazer um teste para entrar em uma oficina de teatro, e num estava sozinho, meu amigo Marcos Paulo estava junto comigo, e como já era de se esperar estávamos muito ansiosos com as possibilidades desse teste, pois não se tratava de qualquer teste, era o teste para a oficina da Cia de Teatro Os Ciclomáticos, tenho profunda admiração por essa cia. Eles seriam apenas mais uma cia de Teatro, mas não, seu trabalho é muito lindo e tocante, um misto de vislumbramento visual com significação sentimental, é inexplicado a qualidade de Os Ciclomáticos.
Enfim, saímos de Volta Redonda rumo ao Teatro Ziembinski no bairro Tijuca no Rio, durante a viagem conversamos sobre coisas normais para atores e isso quer dizer Teatro, fomos nos descontraindo e pensando em como seria esse bendito teste, só a palavra teste já nos deixa nervosos, pois saber que está sendo avaliado já é uma grande pressão, agora saber que você será avaliado juntamente com 89 pessoas, quer dizer 89 atores, é super pressão, mas estávamos felizes simplesmente pelo fato de estar ali, indo em direção ao que sempre sonhamos, sempre pensamos, quem é de Teatro sabe que para nós existe o Teatro e o resto, isso é facilmente explicado pelo fato de nos sentirmos sempre um peixe fora da água longe da cena.
Quando chegamos no Teatro ficamos encantados com a exposição de Os Ciclomáticos que estava no hall de entrada, algumas maquetes de cenários, indumentárias, fotos, releases, tudo muito bem feito, estava descontraído lendo os releases das peças que já foram e ainda são encenadas por eles, das que estão em cartaz, me maravilhando com a maquete muito bem feita de alguns de seus cenários, quando dei por mim estava cercado por uma multidão de gente, o hall do teatro é pequeno, mas parecia minúsculo pela quantidade de gente que estava ali pelo mesmo motivo que eu e meu amigo.
Nesse momento olhei para aqueles rostos, aqueles caras de bermuda e chinelo, aquela menina com roupa de inspiração hippie, nesse momento, nesse ínfimo momento eu senti uma maravilhosa sensação de coletividade, percebi que não estou sozinho, naquele momento éramos todos peixes dentro daquele lindo aquário Teatro, foi uma sensação muito bacana ver naqueles rostos as mesmas ansiedades, os mesmos nervosismos típicos de uma espera de teste, foi muito bom essa experiência, mas eis que se abre a porta do Teatro e adentramos todos vagarosamente para dentro da "caixa preta".
Todos sentados na platéia e lá estavam eles, Os Ciclomáticos nos recebendo com todo aquele carinho e humanidade típica de um abraço coletivo, Ribamar Ribeiro ator, diretor e tudo mais de bom, nos recebeu dizendo como a cia se formou e nos contando um pouco de suas histórias, e olha que não são poucas, dessa vivência teatral de muitos anos. Nos contou que estavam no Teatro Ziembinski através de edital de ocupação com validade para 02 anos, na hora eu pensei que não haveria grupo melhor para ocupar aquele espaço, quem já viu um espetáculo deles sabe muito bem do que estou falando, com sua humildade e seus muitos prêmios, que ele em hora nenhuma nos revelou, continuou dizendo que queria nos conhecer melhor e que era para cada um de nós falarmos um pouco sobre nós.
Naquele momento eu pensei em tudo e nada ao mesmo tempo, sabe aquela vontade de ser original, de falar algo que vai te colocar em destaque, falar algo único e inteligente, igual a candidato em entrevista de emprego sempre querendo impressionar, mas quando o primeiro começou a falar sobre suas experiências, suas dificuldades e anseios com relação ao Teatro, eu percebi que seria, no mínimo, impossível ser original, o segundo falou, o terceiro, quarto, aí eu já tinha certeza que não seria original e muito menos novo o que eu iria dizer, pois aquele sentimento de estar em casa, de compartilhar a mesma vibe que senti no hall se intensificou de forma quase fraternal nos relatos de todos que estavam ali, via o brilho no olho do meu amigo que observava atentamente os relatos que poderiam ser seus.
Eram relatos de um sentimento incondicional pela arte, pessoas que diziam ser formadas em direito, psicologia, fisioterapia, Licenciatura, atendente de tele-marketing, mas em todos residia o mesmo vazio que reside em mim, foi por isso que a identificação foi imediata, a cada relato o amor reaparecia, Baco devia estar super feliz tomando sua taça de vinho naquele momento.
Foram muitos e demorados relatos, alguns me arrepiaram como a história de uma senhora de seus setenta e poucos anos que nos contou sua história, ela disse que sempre residiu nela a paixão pelo Teatro, paixão essa que nasceu nas encenações de escola, ela chegou até a fazer "Martins Penna", mas que foi tolhida pelo seu marido altamente machista, se formou em direito, porém advogou pouco, não conseguia sociedade por conta do ciúmes doentio de seu parceiro, até que um dia vítima de um assalto em sua residencia seu marido veio a falecer com um tiro na cabeça, e o pior, ela e a filha, então com vinte e dois anos, virão tudo acontecer na sua frente, três anos depois essa mesma filha faleceu por conta de um acidente de automóvel, ela disse que passou por momentos de crise, mas uma amiga a aconselhou a desfilar pela terceira idade e ela disse: - eu fui mesmo, precisa me levantar, e eu gostei do negócio, desfilamos em vários hotéis do Rio e até me candidatei a musa da terceira idade!
Ela ainda nos disse que depois disso voltou para o Teatro e que de lá não saia mais, que lá ela era feliz e que queria ser feliz.
Embalado nesse ritmo de comunhão fomos convidados a subir no palco, primeiro as mulheres e depois os homens. Foi aí que a magia aconteceu, eu não acreditei no maravilhoso teste que nos foi proporcionado.
Nós fomos fazer um teste e recebemos uma maravilhosa aula de Teatro, foi deliciosamente a melhor aula de Teatro que já fiz na vida, uma oficina magnífica onde pudemos extravasar conhecimentos e tenções. Nos arrepiamos todos com as mulheres que estavam no palco, pois num primeiro instante elas faziam a oficina e nós assistíamos e depois era a nossa vez, mas que maravilhosa visão, nunca havia vido uma oficina com a estética linda daquele jeito, os atores se jogavam mesmo com vontade. Era um teste? Que teste?! Esquecíamos desse detalhe, por fim estávamos em transe hipnótico Teatral, o prazer era maior do que qualquer ansiedade ou preocupação, naquele momento não havia mais nada, somente nós e o palco.
Quando voltamos para os nossos assentos voltamos outros, não éramos mais quem entramos na "caixa preta", em alguns minutos fomos transformados, os rostos estavam leves, era como se tivéssemos levado uma injeção de Teatro, cura certa para corações vazios, quanta catarse, quanta cumplicidade.
Foi lindo esse dia, por mais que queiramos estar nessa oficina não havemos de negar que o teste na verdade era um presente, eu sei que muitos achariam banal tal atividade, mas para minha experiencia pessoal foi mágico, onírico e triste por saber que na estrada de volta para a casa toda a magia foi esvaindo no caminho e ficando em seu lugar aquele sentimento de vazio, saudade, típico da efemeridade de nossa querida arte Teatro.  

Um comentário:

  1. Leonardo, muito obrigado pelo carinho.
    Ficamos imensamente lisonjeados com suas palavras.
    Ans
    Renato Neves

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